Confissão da confissão.

Um dia, me confessei. Não pra religião, pra padre, pra igreja, nem pra deus. Me confessei pra quem eu senti que machuquei profundamente, constantemente, por tanto tempo que devo ter sido uma daquelas tantas amarras do mundo quando a gente nasce. Devo ter tolhido liberdades que não são nem nunca foram minhas pra tolher. Me confessei, mas não sei se foi pro bem dele ou meu. Gritei meu coração em uma carta silenciosa, que ficou esquecida em uma gaveta. Me rasgo e retorço de angústia de ter o meu grito abafado assim. Mas penso, talvez, isso seja exatamente a mesma moeda que dei. Essa imposição de silêncio, mesmo quando as palavras estão tão claramente ali. Mas, enfim, depois de tantos anos de culpas e torturas, assumi, nem que apenas pra mim mesma, que fui exatamente o tipo de pessoa que eu hoje desprezo. Assumi minha culpa, meu erro, minha vergonha, e me abri naquele papel que eu dobrei, e ele enterrou. Talvez eu esteja mais leve.


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